Quando somos crianças,
tudo parece bem. Porque entre ser criança e uma ferida no joelho ser o
problema, e a idade adulta em que as contas são apertadas, mas lá se criam os
filhos e se compra uma televisão nova, ninguém nos ensinou que entre ser
criança e ser adulto há uma fase assim.
Esta fase.
Em que não estudo, nem
trabalho, e aos 21 e na flor da idade sou senão um fardo em casa dos pais, com
horários e restrições, sou mais uma portuguesa desempregada; sem lugar para ir
ou vontade para ficar.
Emigrar? Para onde? Fazer
o quê? Trabalhar nas limpezas? Isso também eu arranjo aqui.
Procurar, insistir? Para
quê? Receber respostas negativas, porque os "não" são tão mais fáceis
de dar.
É triste, é tão triste
quando sabemos que demos tudo, mais do que tudo; quando sabemos que perdemos
amizades para que o futuro nos brilhasse mais tarde. E agora, nem amigos; nem futuro;
nem nada. Ah, como se devem estar todos a rir neste momento!
Agora, uma estrada sem
saída, um poço sem fundo, um caminho breu.
Com 21 anos e na flor da
idade, posso dizer, e agora?
Desisto. Não sou como
todos os outros que andam por aí, a achar que a vida começa aos 30, porque
realmente já parece mal extorquir dinheiro a quem mais nos ama e apoia. A minha
vida começou no momento em que o conheci a ele. E estou nesta linha de partida
à espera do tiro para correr por este corta-mato, para tropeçar nas raízes das
árvores e sentir o sol aquecer-me o rosto. Mas são estes todos falsos tiros de
partida, uns atrás dos outros, que me fazem correr e parar; voltar atrás,
sempre para trás e parece que cada vez mais atrás.
Porque sem dar por mim,
ou se calhar por dar por mim demais, estou senão a desistir de tudo o que me
rodeia, e dele, que nunca desistiu de mim, estou a empurrar a minha vida para
um abismo, até que um dia vou ser bem sucedida.
Quer dizer, já fui bem
sucedida a apagar completamente a chama da esperança e do positivismo. Posso
dizer que tenho meio caminho garantido para a maior das falhas.
Com 21 anos e na flor da
idade, posso dizer, e agora?
E depois?
O amor não é suficiente, ah, era tão bom poder acreditar nos filmes e contos-de-fada, e acreditar que o amor é sempre superior aos maiores problemas.
O amor não é suficiente, ah, era tão bom poder acreditar nos filmes e contos-de-fada, e acreditar que o amor é sempre superior aos maiores problemas.
Sabem o que me apetece?
Chorar, desistir e ficar-me por aqui.
A vida é difícil e não é
para mim. Nem amigos, nem futuro, nem nada.