14.10.14

E agora?

Quando somos crianças, tudo parece bem. Porque entre ser criança e uma ferida no joelho ser o problema, e a idade adulta em que as contas são apertadas, mas lá se criam os filhos e se compra uma televisão nova, ninguém nos ensinou que entre ser criança e ser adulto há uma fase assim.
Esta fase.
Em que não estudo, nem trabalho, e aos 21 e na flor da idade sou senão um fardo em casa dos pais, com horários e restrições, sou mais uma portuguesa desempregada; sem lugar para ir ou vontade para ficar.
Emigrar? Para onde? Fazer o quê? Trabalhar nas limpezas? Isso também eu arranjo aqui.
Procurar, insistir? Para quê? Receber respostas negativas, porque os "não" são tão mais fáceis de dar.

É triste, é tão triste quando sabemos que demos tudo, mais do que tudo; quando sabemos que perdemos amizades para que o futuro nos brilhasse mais tarde. E agora, nem amigos; nem futuro; nem nada. Ah, como se devem estar todos a rir neste momento!
Agora, uma estrada sem saída, um poço sem fundo, um caminho breu.

Com 21 anos e na flor da idade, posso dizer, e agora?

Desisto. Não sou como todos os outros que andam por aí, a achar que a vida começa aos 30, porque realmente já parece mal extorquir dinheiro a quem mais nos ama e apoia. A minha vida começou no momento em que o conheci a ele. E estou nesta linha de partida à espera do tiro para correr por este corta-mato, para tropeçar nas raízes das árvores e sentir o sol aquecer-me o rosto. Mas são estes todos falsos tiros de partida, uns atrás dos outros, que me fazem correr e parar; voltar atrás, sempre para trás e parece que cada vez mais atrás.
Porque sem dar por mim, ou se calhar por dar por mim demais, estou senão a desistir de tudo o que me rodeia, e dele, que nunca desistiu de mim, estou a empurrar a minha vida para um abismo, até que um dia vou ser bem sucedida.
Quer dizer, já fui bem sucedida a apagar completamente a chama da esperança e do positivismo. Posso dizer que tenho meio caminho garantido para a maior das falhas.

Com 21 anos e na flor da idade, posso dizer, e agora?
E depois?
O amor não é suficiente, ah, era tão bom poder acreditar nos filmes e contos-de-fada, e acreditar que o amor é sempre superior aos maiores problemas.
Sabem o que me apetece? Chorar, desistir e ficar-me por aqui.
A vida é difícil e não é para mim. Nem amigos, nem futuro, nem nada.