14.9.15

tudo muda.

Às vezes sento-me a pensar em tudo aquilo que muda.
As pequenas coisas que outrora eram a nossa melhor realidade e agora não passam de distantes memórias que, às vezes, até nos forçamos a esquecer. Não porque foram más. Mas porque foram boas demais e chega a ser doloroso lembrarmo-nos.
Falo de tudo. Falo de um quarto pouco aconchegado onde se passaram todas as noites da vida; falo das pessoas que fizeram parte de todos os dias e hoje passam por estranhos, pessoas a quem baixamos a cabeça para não ter de cumprimentar; falo ainda de todos os hábitos e passatempos que faziam parte dos serões, e que hoje não são além de um quarto de hora mal passado.
Não sei como posso continuar este texto. Estou desiludida e desapontada que certas coisas não continuaram como foram e, pior do que isso, o meu desleixo de as ver partir sem bilhete de volta e, em vez de as permitir a ficar, deixá-las ir com um aceno de mão.
Sou tão estúpida. E agora queixo-me.

27.10.14

hoje em inglês.

Hoje acordei a pensar em inglês. Não sei porquê, mas sei que não sou a única a ser assim. Às vezes, parece simplesmente mais fácil e menos violento pensar em inglês.
Hoje acordei apontava o relógio as seis e meia da manhã. Voltei a adormecer durante breves períodos de tempo para nada de melhor.

There are days when your nightmares can lead you to fear your own reality.
Foi a primeira frase da manhã, pensada antes do sol nascer.
Porque quando a realidade é simples e perfeita, as minhas noites com insónias desvanecem tudo o que sinto, bem cá dentro, de bom. Destroem e partem em pedaços de vidro a felicidade, a esperança e o sorriso com que me deixei adormecer.
E assim, acordo drenada de energias para um dia preenchido como foi o de hoje.

Mais tarde no dia, quando todos os fatores positivos deixam de interessar nesta fase turbulenta de dor de cabeça e desânimo, de cansaço e de querer dormir - diz o relógio que são nove e piques da noite - surge-me outra frase.

It's not much, really. But it's home.
Seria de esperar o lado reconfortante e positivo desta frase.
Mas não.

Deito-me para outra noite de insónias mal merecidas.
Já lá vão mais de duas horas desde que olhei para o relógio. Devo ter adormecido entretanto, entre as novelas da noite e uma conversa sem nexo com a mãe.

14.10.14

E agora?

Quando somos crianças, tudo parece bem. Porque entre ser criança e uma ferida no joelho ser o problema, e a idade adulta em que as contas são apertadas, mas lá se criam os filhos e se compra uma televisão nova, ninguém nos ensinou que entre ser criança e ser adulto há uma fase assim.
Esta fase.
Em que não estudo, nem trabalho, e aos 21 e na flor da idade sou senão um fardo em casa dos pais, com horários e restrições, sou mais uma portuguesa desempregada; sem lugar para ir ou vontade para ficar.
Emigrar? Para onde? Fazer o quê? Trabalhar nas limpezas? Isso também eu arranjo aqui.
Procurar, insistir? Para quê? Receber respostas negativas, porque os "não" são tão mais fáceis de dar.

É triste, é tão triste quando sabemos que demos tudo, mais do que tudo; quando sabemos que perdemos amizades para que o futuro nos brilhasse mais tarde. E agora, nem amigos; nem futuro; nem nada. Ah, como se devem estar todos a rir neste momento!
Agora, uma estrada sem saída, um poço sem fundo, um caminho breu.

Com 21 anos e na flor da idade, posso dizer, e agora?

Desisto. Não sou como todos os outros que andam por aí, a achar que a vida começa aos 30, porque realmente já parece mal extorquir dinheiro a quem mais nos ama e apoia. A minha vida começou no momento em que o conheci a ele. E estou nesta linha de partida à espera do tiro para correr por este corta-mato, para tropeçar nas raízes das árvores e sentir o sol aquecer-me o rosto. Mas são estes todos falsos tiros de partida, uns atrás dos outros, que me fazem correr e parar; voltar atrás, sempre para trás e parece que cada vez mais atrás.
Porque sem dar por mim, ou se calhar por dar por mim demais, estou senão a desistir de tudo o que me rodeia, e dele, que nunca desistiu de mim, estou a empurrar a minha vida para um abismo, até que um dia vou ser bem sucedida.
Quer dizer, já fui bem sucedida a apagar completamente a chama da esperança e do positivismo. Posso dizer que tenho meio caminho garantido para a maior das falhas.

Com 21 anos e na flor da idade, posso dizer, e agora?
E depois?
O amor não é suficiente, ah, era tão bom poder acreditar nos filmes e contos-de-fada, e acreditar que o amor é sempre superior aos maiores problemas.
Sabem o que me apetece? Chorar, desistir e ficar-me por aqui.
A vida é difícil e não é para mim. Nem amigos, nem futuro, nem nada.

3.6.14

mudanças.



não posso esperar que seja fácil adaptar-me a um conjunto de mudanças cruciais e que me abalaram todas num dia só. mas arrastar essa dor durante semanas, na esperança que a mágoa seja melhor que as oscilações entre a felicidade e a solidão, deixou de me parecer a melhor maneira. fizeram-me ver que não é a melhor maneira.
para ser quem sou, estar onde estou e fazer o que faço, não foi sem o apoio daqueles que mais me amam e me querem melhor, não foi sem as chamadas de atenção mais ou menos bruscas. não foi sem traumas, terapias, feridas e lágrimas. mas também não foi sem amor, força, persistência e apoio incondicional.
preciso disto: deste estado temporário de rápido crescer e aprender, porque só assim aprenderei o que é o outro lado da vida. o outro lado dos 20's.
vejamos o lado positivo: posso dançar às tantas da noite, ter a música no volume que me apetecer, não preciso de sussurrar, janto o que quero e quando quero, lavo a louça à hora que quiser, posso adormecer ao chegar a casa, acender uma vela aromática, cantar no duche, tirar fotografias idiotas e saltar pela casa inteira.

podia ser pior. mas não é.

20.4.14

E agora?

Quando é que a vida se tornou tão complicada, que deixas de saber se tens força para andar? Quando é que tudo se tornou tão insuportável, que deixas de saber quem deves ser?
Quando é que os monstros que se escondiam e nos atormentavam durante a noite, passaram a ser monstros interiores que nos atormentam noite e dia? Quando é que o nosso principal problema deixou de ser não tomar banho de banheira, e passou a ser um familiar no hospital, o nosso ponto de abrigo a cair, funerais à nossa volta, e a nossa cara-metade adormecer enquanto choramos ao seu lado?
Quando é que toda a gente começou a morrer, quando é que a vida à nossa volta deixou de ser verde e azul, relva e céu, mar e céu, areia e céu. Quando é que tudo deixou de ser ouro sobre azul?
Era tão mais simples quando o nosso principal problema era a baixa auto-estima. Quando dentro de nós tudo corria mal, mas subconscientemente tínhamos a liberdade de nos agarrar a tudo o que exteriormente nos corria bem.

E agora, que por dentro corre mal, e por fora pior corre?
E agora, onde me agarro?
E agora, que os muros cor-de-rosa desabaram?
A um ponto de abrigo que caiu, a uma cara-metade que adormece enquanto choro, a uma cidade nova e à solidão que lhe acresce?
Soluções todas elas inviáveis.

Cheguei aos 20's. Já percebi o que falavam.

21.2.14

Ami / zade.


Cara pessoa,

Quero falar contigo sobre umas coisas, que talvez te tenhas vindo a perguntar (ou não). Mesmo que não te tenhas perguntado, eu vou dizer. Porque eu preciso de dizer, desde que escavei aquelas memórias, durante a tarde. As palavras não me saem da cabeça, por isso eu quero que saibas. Claro que eu sei que não vais ler; já não tens contacto nenhum meu, nem como saber deste meu novo endereço, mesmo que as coisas entre nós tenham ficado senão pendentes.

Mas, por descargo de consciência.

Perguntaste-te, alguma vez, se rasguei as tuas fotografias, e queimei as tuas cartas? Quero dizer-te que não. Não fiz nada disso. As cartas continuam nos envelopes em que me entregaste, no mesmo sítio onde as deixei no dia em que as guardei e prometi ser ali por ser pertinho do coração. Ainda lá ocupam o seu lugar. As fotografias, as fotografias com molduras, e as molduras, estão lá também. As molduras até têm dedicatórias. Também não risquei essas.
Perguntaste-te, também, se apaguei do computador os nossos momentos? Desde as fotografias, aos vídeos, aos trabalhos? Não. Sabes porquê? Porque olhar para elas é doloroso, mas pelo menos desta maneira eu posso lembrar-me que foste verdade. Que estiveste ao meu lado nos meus bons momentos, e nos meus maus momentos. E eu também estive ao teu lado, nos teus bons momentos, e nos teus maus momentos.
Perguntaste-te, ainda, porque não apaguei nenhum dos teus comentários, das tuas publicações, ou sequer de ter algum contacto comigo? Porque quero acreditar que ainda aqui estás. E que aquelas memórias ainda vão acontecendo, num ou noutro dia.

Porque é que não te apaguei da minha caixa, do meu computador? Porque não te consigo apagar da minha vida, apesar de ter conseguido, forçosamente, imprisionar-te longe da vista, no meu coração.
Quero que saibas, melhor amiga, que o vais sempre ser. Porque independentemente dos motivos que nos levaram a separar-nos, eu lembro-me bem de todos os que nos levaram a acreditar na nossa improvável amizade. E quero também que saibas que continuo à espera que chegue o dia de ficar tudo bem, e que nos lembremos que o passado já foi. Mas não me deixas esquecer. Porque o meu passado é o teu presente e, bom, já falámos sobre isso.
Eu amo-te. Muito, a sério. Fizeste-me crescer, e acreditar. Sem ti, talvez nada daquela que é hoje a minha vida poderia ter sido possível. Fizeste-me rir sempre e, ó, há tanto tempo que já não me ria. Fizeste-me feliz! Eu era feliz!
Mas é tão triste saber que a pessoa que mais te ajudou foi a pessoa que mais caiu.
E eu tentei. Eu juro que tentei tudo.
Não mudou o que eu sinto; eu continuo a amar-te e vai sempre magoar-me ver-te do outro lado e não poder olhar para ti, mesmo que seja ao longe, e comentar uma expressão, um olhar, seja-o-que-for. Porque nós comentávamos tudo e depois era tão difícil não rir. Lembras-te? Não mudou nada do que sinto, prometo. Simplesmente derivaram outros sentimentos, e esses sentimentos não são bons. Mas eu prometo, Prometo.

Quero que saibas, meu amor, que não te culpo; mas não te desculpo.


11.12.13

rastilho.


(autor desconhecido)

Há um rastilho na vida que nos faz aperceber de algumas coisas.
Apercebermo-nos de quem somos e até onde conseguimos chegar. Apercebermo-nos o que somos capazes de fazer pelos outros, e quando é que a nossa felicidade é mais importante do que aquilo que os outros esperam de nós.
E eu apercebi-me, depois de algumas tentativas falhadas, que há pessoas que vão ter o melhor de mim, todos os dias. Que há outras que não vou esquecer, por todas as memórias e todos os bons momentos. Que há ainda aquelas que é preferível ignorar, em vez de deixar atravessar aquilo que dizem, e fazem. E depois, há aquelas que me magoam tanto, e perdem o meu respeito tão depressa, que não merecem nem sequer a minha atenção.
Há muitas coisas que vão mudar; mas não importa. Porque eu estou primeiro.

18.2.13

o antagonismo desistir-persistir.

(autor desconhecido)

sou confrontada com esta decisão todos os dias; várias vezes ao dia. sigo a linha vermelha durante três passos, três longos passos, para me aperceber que estou a seguir o caminho errado. 
desistir já foi fácil. houve tempos em que estava habituada a estes caminhos e os sabia de cor. sabia onde poderia tropeçar, desviava-me dos arbustos venenosos, saltava além das areias movediças, tinha algum tipo de equilíbrio sobre toda uma estrada instável; e, mais importante do que tudo isso, os meus olhos já desconheciam a luz, e estavam acostumados a olhar para cima e vislumbrar um pedaço de vazio tempestuoso. 
agora não.
o caminho da desistência é-me, agora, desconhecido. tropeço no primeiro passo e cambaleio nos dois seguintes; caio de testa no chão e rastejo para um caminho sem armadilhas. 
persistir é mais fácil, embora não pareça. 
sim, persistir envolve força e muitas vezes não a conseguimos encontrar. mas não procuramos o suficiente, porque desistir consome-nos o dobro dessa força. a desistência é alimentada por força que não usamos, e se desistimos, estamos somente a dar um mau uso às nossas capacidades.
e que maravilhoso é, um vestígio de fim; um vislumbre de céu claro; uma sensação de calor quente. o sol vê-se, na persistência. o caminho tem os seus buracos, mas qual não o tem? 
o caminho do desistente reserva um consumo de forças que provoca senão a morte do ser, enquanto persistir é todo um desconhecido de oportunidades.

17.2.13

título.

(autor desconhecido)


percebi que, se é passado, só é necessário deixar de olhar. basta virar as costas e partir para outro lugar. encontrar novas pessoas, novas realidades, novos caminhos, novos jardins, novos cheiros, novos sabores.
percebi que, se é passado, adianta nada continuar a deixar-me envolver pelas raízes de heras que me prenderam (demasiado tempo).
percebi que, se é passado, basta sair no primeiro cruzamento à vista, ignorar todo aquele caminho de sofrimento que se avista mais adiante.
percebi que, se é passado, está na altura de tomar o outro rumo.